A CONQUISTA DA AMÉRICA
A conquista da América: a expansão espanhola (1492/1572).
O expansionismo é uma característica das sociedades de classes, onde os povos datados desde a antigüidade caracterizariam esta agressividade expansionista. No contexto da América, o fenômeno se verificava, durante o século XV, pelo movimento distribuído entre os estados asteca e inca, que se encontravam então em pleno movimento de expansão, e possuiriam um governo fortemente centralizado (Estado) assim como um forte aparato militar de conquista. Desta maneira se formariam os grandes impérios com suas famosas capitais e federações: os exemplos de Tenochtitlan (Astecas) e Cuzco (Incas), na América.
1. A Chegada européia e seus imaginários.
No final do século XV, na mesma época em que os astecas e os incas estavam no auge da formação de seus impérios, partiria das Espanha a expedição de Colombo que tinha como roteiro original a expansão rumo ao oriente, navegando em direção ao oeste, no objetivo de contornar a terra até ao leste. Foi assim que ele encontrou a América, ainda que não se desse conta da localização (contam as crônicas que mesmo pensara estar atingindo a região do Japão!!). Logo depois Pedro Álvares Cabral chegava ao Brasil. De início, o novo continente não despertou interesse, mais à medida que outros estados europeus começaram a manifestar o seu interesse pelas terras americanas, os países ibéricos (Espanha e Portugal) tratariam de assegurar a posse com a ocupação, resultando disso um novo fenômeno histórico: a colonização mercantilista, um novo tipo de expansão, desconhecido dos antigos.
O IMAGINÁRIO CRISTÃO: olhares dos conquistadores.
Quando da chegada ao Novo Mundo e sua conquista, os europeus definiam a si mesmos, antes de mais nada, como cristãos, e foi nessa qualidade que chegaram à América. Por isso, a ocupação da América foi concebida pelos ibéricos como um dever ou uma missão religiosa, cujo objetivo último era difundir a fé cristã e a promoção da cristianização dos índios na salvação de sua alma.
É válido lembrar que o primeiro encontro entre o navegador e o indígena celebraria um misto de espanto, fascínio e terror, no que se deve tal fato, principalmente ao contraste cultural dos povos: a visão de superioridade cristã do europeu, de frente com um indivíduo não–cristão, e portanto, dado como ser “primitivo, inferior e selvagem”.
O discurso era afirmado pela realeza e seus aventureiros e era essa a ocupação de atores deste contexto como os jesuítas: esse consenso cultural inicial havia caminhado para a elaboração de uma política indigenista voltada à conversão dos índios, uma vez que o lugar do novo mundo ainda seria mistificado pela idéia de feitiços que poderiam cercar as populações primitivas.
2. A chegada dos Espanhóis: “deuses ou demônios”.
Os espanhóis encontraram na América uma diversidade social, como incas, maias e astecas. O choque cultural entre elas e o invasor foi profundo e irreversível.
Uma das expressões desse choque se revela nas diferentes atitudes assumidas por espanhóis e astecas diante dos metais preciosos. Enquanto os primeiros tinham se lançado à aventura das navegações em busca de ouro e prata, os últimos viam nesses metais apenas um material útil para a confecção de adornos.
Impressionados com o comportamento dos espanhóis diante daquele metal amarelo, um indígena chegou a dizer que "iguais a macacos, (eles) enchiam as mãos com ouro: ‘nós, espanhóis, sofremos de uma doença do coração, cujo remédio específico consiste no ouro’, justificaria o conquistador do México Hernán Cortez.”.
3. “Duas culturas em conflito: o invasor Cortez”
Os Conquistadores – no início do século XVI, os espanhóis organizaram várias expedições para reconhecer e conquistar o continente americano, principalmente sua parte central. Em geral, elas partiam do atual território de Cuba, já dominado pelos espanhóis. A de maior significado foi a expedição comandada por Hernán Cortez, que destruiu o Império Asteca, na atual região do México. Os primeiros contatos causariam
talvez um sentimento de fascinação, mas também de indignação ou intolerância do conquistador sobre os usos e costumes da população local, sempre dada como inferior ou selvagem na visão espanhola e dos demais colonizadores: as práticas culturais ditas como obra do demônio, e que por isso deveriam ser exterminadas.
Por este aspecto, Hernán Cortez, foi durante muito tempo, foi celebrado por alguns como o criador do México, sem levar-se em consideração o massacre social cultural por ele promovido. A Construção da Nova Espanha – quando Cortez e seus soldados desembarcaram na atual Vera Cruz, México, os astecas pensaram que eles eram deuses, montados em grandes veados (os povos americanos não conheciam o cavalo).
Em vez de lutar, o imperador Montezuma enviou emissários com presentes e pedidos para que o invasor se retirasse: Cortez, porém, vinha para conquistar o império, utilizando entre outros pretextos o ideal de conquista sobre os povos pagãos, que não aceitassem a submissão pela cultura cristã, pois era justificado e santificado a guerra de conquista para esta finalidade, dado o imaginário da formação marítima dos reis católicos de Espanha.
Os espanhóis traziam cavalos e canhões, desconhecidos dos nativos, e estavam em inferioridade numérica. Para compensar essa desvantagem, esforçaram-se por conhecer a cultura daquele povo, o entendimento da língua e conhecimento de costumes; descobriram que eram considerados deuses e que o domínio asteca sobre os povos da região era frágil, imposto pelo medo.
Os espanhóis formaram alianças com os inimigos dos astecas e procuraram obrigar Montezuma a mostrar os mapas da terra e os livros dos impostos, pois tinham pressa em encontrar as lendárias riquezas do império asteca: o ouro sem dúvida, eles o desejavam com uma sede furiosa. Atitudes como essa, eram já assinaladas desde os dizeres de Colombo onde “a melhor coisa do mundo é o ouro, é capaz de enviar almas aos céus”, o que de fato fizeram.
4. O massacre Azteca – um incidente, entretanto, precipitou o confronto aberto, no que precisando retornar a Vera Cruz, Cortez passou o comando das tropas em Tenochtitlan para Pedro Alvarado. Durante uma festa religiosa, tomado pelo terror ou espanto que causava as práticas do festejo asteca, que seria comparado talvez a uma cena selvagem ou diabólica, na visão do europeu, seu líder Alvarado ordenou aos soldados que fechassem as portas do templo principal e massacrassem os nativos.
O chão do templo se encharcou com o sangue de mais de mil astecas. Os que estavam fora descobriram dessa forma que os espanhóis não eram deuses. Voltando a Tenochtitlan, Cortez tentou convencer Montezuma a acalmar seus súditos. Mas estes já não ouviam o imperador. Seguindo ordens de Cuitlahuac, irmão de Montezuma, lançaram-se ao ataque: os espanhóis foram alcançados fora da cidade e derrotados na Noite Triste, de 30 de junho de 1520 (Noite da vitória para os astecas)
“A queda de Tenochtitlan” – Cortez se refugiou em Tlaxcala, cidade inimiga dos astecas. Enquanto isso, Tenochtitlan foi tomada por um surto de varíola, doença transmitida pelos europeus e contra a qual os astecas não tinham defesa. Cuitlahuac morreu, e o novo imperador passou a ser Cuauhtémoc (águia que caí, no idioma indígena).
Com 650 soldados de infantaria, 194 mosqueteiros, 84 cavaleiros e milhares de nativos aliados, Cortez atacou Tenochtitlan. Repelido pelos guerreiros aztecas, cercou a cidade e envenenou as fontes de abastecimento de água. Milhares de aztecas morreram em 75 dias de fome, sede, doenças e combates. A capital do império caía nas mãos do invasor. Cuauhtémoc sofreu terríveis torturas para mostrar o lugar onde eram guardados os tesouros. Apesar de lhe queimarem os pés, este nada revelou. Cortez mandou cortar-lhe então a cabeça.
5. O fim do Império Inca – uma vez dominada a região central do continente, os espanhóis se voltaram para a América do Sul. Nessa empreitada. destacou-se a expedição comandada por Francisco Pizarro, um militar de ascendência nobre que submeteu o poderoso Império Inca. A luta interna de líderes pelo trono Inca, facilitou sua ação. Quando Pizarro chegou à região, em 1532, Atahualpa já havia derrotado o irmão.
Com a chegada dos invasores, saiu da cidade com a corte e cerca de 30 mil soldados, aceitando encontrar-se com Pizarro, em missão de paz, que distribuiu soldados no local do encontro, com o objetivo de surpreender e capturar o imperador.
A um grito de Pizarro, os espanhóis atiraram-se sobre a multidão. Prenderam o imperador e mataram quase todo o cortejo. Para libertação de Atahualpa, exigiram 1 quarto cheio de ouro e dois de prata. O império se mobilizou: estatuetas de deuses e adornos foram derretidos. Em alguns meses, os aposentos estavam cheios. Pizarro separou as partes do rei, Igreja, soldados e a maior, para si. “Só a liteira do Inca, seu troféu de general, pesava 83 quilos de ouro puro, no que Atahualpa foi condenado à morte, prenunciando o que iria acontecer depois com a civilização Inca.”
O governo de Pizarro organizaria a permanência de postos de comando, composto por vários Incas ligados a Huáscar, a fim de dominar mais facilmente o império dividido. A conquista final veio em seguida, onde em 1533, os espanhóis tomaram Cuzco e Quito; em 1535, fundaram Lima, que se tornou a nova capital das terras conquistadas.
As colônias da Espanha – no panorama consolidado, os espanhóis dividiram as terras conquistadas em quatro vice-reinos: Nova Espanha, Nova Granada, Peru e da Prata. Ao lado deles, criou quatro capitanias gerais: Cuba, Guatemala, Venezuela e Chile. Para administrá-los, o rei nomeava vice-reis e capitães-gerais, com poderes abrangentes. Os governantes contavam com a ajuda das audiências, tribunais responsáveis pela justiça, Igreja, forças armadas, finanças, mineração e comércio. Outro organismo de governo eram os cabildos, espécie de câmaras municipais, que controlavam a polícia, fixavam impostos e faziam as leis das vilas e cidades.
6. Religiosidade e Política Colonial
Igreja e realeza trabalhavam juntas e se auxiliavam mutuamente para controlar as colônias. Assim, o papa concedeu ao rei o direito de administrar os interesses da Igreja nas Américas. Em troca, o rei se comprometeu a ajudar na expansão do catolicismo. A Igreja atuava em duas frentes principais: as missões, que consistiam em aldeamentos destinados a catequizar os índios, integrando-os aos costumes europeus; e os tribunais da Inquisição, instalados na Nova Espanha e no Peru, que julgavam os hereges, isto é, os acusados de divulgar idéias que a Igreja considerava contrárias à fé cristã.
Logo quando os espanhóis chegaram à ilha de São Domingos, nas Antilhas, os índios foram dominados e “repartidos” entre os povoadores. Esse repartimento (“repartimiento”) de índios funcionava do seguinte modo: os grupos indígenas locais eram obrigados a fornecer aos espanhóis certa quantidade anual de trabalhadores, que por acordo seriam remunerados. Em 1509, o rei de Espanha legalizou o “repartimiento”, atribuindo a ele o nome de “encomienda” (encomenda de trabalhos). Assim os povoadores receberiam certo número de indígenas, que lhes eram encomendados e aos quais ficavam obrigados a proteger e cristianizar. Em troca, tinham o direito de exigir deles tanto serviço quanto tributos. Naturalmente os encomenderos não cumpriam a sua parte e os índios acabariam na prática escravizados. Esse sistema foi adaptado para servir aos espanhóis nas minas do Alto Peru e do México: os índios foram obrigados a fornecer certo número de trabalhadores, que deveriam ser empregados na atividade de mineração por um ano, sendo substituídos por uma nova turma. Tratava-se ainda do repartimiento, mas no México esse sistema ficou conhecido como Cuatequil e no Peru Bolívia, sendo denominado por Mita.
A primeira e maior preocupação do rei espanhol não era com os índios, e sim com a criação de medidas capazes de impedir o contrabando de metais preciosos. Daí a importância geral do exclusivo metropolitano, cuja função era a de transferir integralmente o ouro e a prata para a Espanha.
7. O Colonialismo Ibérico: paralelos de uma exploração
Como é sabido, o que asseguraria o sucesso do povoamento e da ocupação econômica do Brasil pelos portugueses foi a instalação da agroindústria açucareira. Mais bem-sucedidos do que os portugueses nas tentativas de exploração de riquezas minerais, os espanhóis logo encontraram o êxito com riquíssimas minas de prata.
Ouro e Prata para Espanha – no contexto das primeiras investidas espanholas no continente americano a partir da Ilha de Hispaniola (São Domingos e Haiti), de onde partiram Hernán Cortez e Francisco Pizarro para a conquista, trazendo como resultado respectivamente, o massacre dos povos asteca (México) e inca (Peru), fez-se a contínua busca por metais preciosos, que em falta na Europa, sobravam na América. Como todos os outros europeus que migravam para a América, os espanhóis vieram em busca de riqueza fácil e rápida. Tiveram sorte. Em 1545 descobriram as minas de prata (sendo a maior de toda a de Potosí), na atual Bolívia (então chamada de Alto Peru) e, no ano seguinte, no norte do México.
O Fundamento Metalista – entre 1503 e 1660, foram transferidas para a Espanha aproximadamente 300 toneladas de ouro e 25 mil toneladas de prata. No trabalho de exploração das minas foram empregados os índios, submetidos pela violência. O sistema colonial espanhol voltou-se unicamente para a obtenção de metais preciosos. Uma das áreas mais importantes era o golfo do México, onde se localiza o porto de Vera Cruz. De lá sairiam ouro e prata rumo a Sevilha, cuja Casa de Contratação controlava o comércio colonial.
As epidemias – a chegada dos estrangeiros, ou dos bárbaros europeus, alterou o equilíbrio existente, com a introdução de novas armas e maneiras de guerrear. Porém nenhuma arma foi mais destrutiva com as epidemias que os europeus trouxeram.
Os habitantes da América estavam isolados do resto do mundo, de modo que não tinham desenvolvido defesas naturais contra epidemias que eram comuns em outras partes do mundo. Assim, ao entrarem em contato com os brancos, os povos americanos foram vítimas do choque microbiano e virótico que os dizimou. Considerando apenas os habitantes das Antilhas, do México e do Peru, estima-se que as doenças de origem européia ceifaram perto de 3/4 da população.
O primeiro surto de varíola ocorreu no México em 1522, vitimando os astecas. Em 1545 espalhou-se na mesma região uma espécie de tifo que atingiu também o Peru. Em 1558, a varíola chegou ao Peru. No Brasil, em 1563, a doença dizimou cerca de 3/4 da população da Bahia, fazendo vítimas em Pernambuco e S. Vicente: os indígenas eram vulneráveis até a gripe, assim como não teriam também nenhuma defesa contra o sarampo.
Na região da Meso-América, onde viviam os astecas e os maias, a população de 16,8 milhões de habitantes existentes em 1534 ficou reduzida a 1,9 milhões em 1595, devido à presença espanhola. A mesma catástrofe demográfica se repetiu por toda a América.
Olhares Indígenas – a chegada dos espanhóis foi um choque para quase os povos americanos, onde de acordo com a interpretação destes últimos, aqueles que fossem recém-chegados seriam em grande parte considerados como deuses ou enviados dos deuses.
Há relatos de que entre os astecas, os espanhóis haviam sido anunciados por inúmeros presságios: a vista de estrelas ou cometas cadentes, o incêndio de um templo asteca, água fervente no meio do lago, visões de homens galopando em animais semelhantes a veados, etc. Os sacerdotes maias falavam de uma árvore ou madeira sagrada que traria enormes mudanças. Os incas associaram os barbudos espanhóis ao regresso do deus Viracocha, e entre os próprios taínos, (primeiros indígenas a entrar em contato com o europeu), nas Antilhas também haveria crenças semelhantes.
Quando chegaram as primeiras notícias sobre os espanhóis, os astecas falavam de embarcações enormes como montanhas de cães ferozes e armas que cuspiam fogo. O imperador asteca, Montezuma, ficou angustiado: pensou que a serpente emplumada, o Deus Quetzacoalt, havia regressado. Mas nem ele nem os sacerdotes tinham muita certeza disso. Depois dos primeiros contatos e dos primeiros confrontos, as dúvidas se desfizeram. Os espanhóis passaram a ser considerados estrangeiros (dzules) pelos maias e bárbaros (popolocas) pelos astecas.
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