quarta-feira, 24 de julho de 2024

A origem do homem americano

Segundo muitos cientistas, foi no continente africano que surgiram os “primeiros humanos”. Da África, nossos ancestrais deslocaram-se para outras regiões da Terra, ocupando os mais variados ambientes no decorrer de milhares de anos. Uma dessas regiões foi a América.

Há várias hipóteses sobre a ocupação humana da América. A mais aceita sustenta que os primeiros homens a chegarem à América vieram do norte da Ásia, através do estreito de Bering, que separa a Sibéria (Rússia) do Alasca (Estados Unidos). Nessa época, o nível das águas do mar tinha baixado, formando-se uma ponte de terra e gelo entre a Ásia e a América. Posteriormente, essa ponte se desfez, quando a temperatura do planeta aumentou e o nível das águas do mar tornou a subir.

Essa versão do povoamento é conhecida como teoria de Clóvis. Ela se originou das pesquisas realizadas no sítio arqueológico de Clóvis ou Folson, no estado do Novo México, Estados Unidos, em 1937. Os vestígios deixados pelos grupos humanos que aí viveram, basicamente pontas de pedra lascada e ossadas dos animais que caçavam, constituíram a chamada cultura Clóvis.

Alguns estudiosos, com base na idade dos fósseis encontrados, afirmam que as primeiras migrações do ser humano para a América ocorreram aproximadamente entre 12 mil e 20 mil anos atrás. Entretanto, outros pesquisadores, como a arqueóloga brasileira Niéde Guidon, defendem que as mais antigas travessias foram realizadas entre 40 e 70 mil anos atrás, e que o ser humano chegou a América por diferentes via de acesso.

Entre os principais sítios arqueológicos a fornecer dados que permitem questionar a teoria de Clóvis está o de Monte Verde, no Chile.

Em Monte Verde, no Chile, foram descobertas centenas de artefatos de pedra e restos de alimentos mais antigos que as lascas de pedra encontradas em Clóvis. Além de ferramentas de pedra, o sítio de Monte Verde reúne um vasto tesouro da arqueologia americana. Lá foram encontradas fundações de casas em madeira, ossos de animais, plantas comestíveis, como batatas selvagens, nozes e cogumelos, além de diferentes espécies de plantas medicinais.

As descobertas arqueológicas no sul do Chile fizeram surgir novas hipóteses:

· O povoamento da América do sul pode ter sido anterior ao da América do Norte.

· Os povoadores da América entraram no continente por vários caminhos, não só pelo Estreito de Bering.

· Os alimentos vegetais eram importantes em Monte Verde.


Outros sítios arqueológicos, pesquisados em vários países da América, revelaram vestígios de datas mais antigas que os de Monte Verde, chegando talvez a cerca de 50 mil anos.

Vestígios arqueológicos no Brasil

No Brasil, os mais antigos vestígios desses povos datam do período paleolítico: sambaquis, utensílios primitivos e pinturas rupestres. O conjunto de vestígios encontrados em determinada região é chamado de sítio arqueológico, e sua análise cabe à Arqueologia, a ciência que estuda os povos pré-históricos. Através desse estudo desenvolveu-se o conhecimento do período anterior à chegada de Cabral ao Brasil, em 1500.

Sambaquis são volumosos montes de conchas e esqueletos de peixes, associados a objetos de pedra, às vezes com mais de 10 metros de altura. Distribuídos por todo o litoral brasileiro, destacadamente no sul, atestam que ali viveram grupos humanos que se alimentavam de animais marinhos há mais de 10 000 anos.

Utensílios primitivos também foram encontrados em diversos pontos do litoral e do interior do Brasil: pontas de flechas, machados e outros instrumentos, além de potes de barro, alguns decorados e usados como urna para os mortos, dentro dos quais foram achados esqueletos.

Pinturas rupestres, compostas de desenhos de figuras humanas e de animais, cenas de caça e pesca, foram encontradas nas paredes de grutas e cavernas e em lajes de pedras em lugares abertos. São famosas as pinturas rupestres de cavernas em Minas Gerais e em São Raimundo Nonato, no Piauí.

As descobertas arqueológicas no Brasil

Desde o século XIX são realizadas pesquisas arqueológicas no brasil. Entre 1834 e 1846, o dinamarquês Peter Lund, pesquisando na região de Lagoa Santa, no interior de Minas Gerais, encontrou vestígios de grupos de caçadores que viveram no local há milhares de anos.

No século XX, as pesquisas se multiplicaram. Em 1975, no sítio arqueológico de Lapa Vermelha, próximo a Lagoa Santa, foi encontrado o esqueleto mais antigo da América. Com 11 500, esse esqueleto pertence a uma mulher de mais ou menos 20 anos e 1,50 m. Com traços negroides, ela ganhou o nome de Luzia.

As pesquisas na região de Lagoa Santa permitiu conhecer os hábitos dos povos que habitavam a região há milhares de anos. Esses povos são conhecidos como Homens de Lagoa Santa.

Hoje existem muitos outros sítios arqueológicos sendo estudados. Vamos conhecer com mais detalhes os de São Raimundo Nonato e Pedra Pintada, dois dos principais sítios arqueológicos do país.

São Raimundo Nonato

No início dos anos 1970, sob a coordenação de Niède Guidon, uma equipe de pesquisadores começou a estudar um sítio arqueológico na região de São Raimundo Nonato, no interior do piaui. O resultado das pesquisas provocou verdadeira revolução nos estudos arqueológicos brasileiros.

A análise de fósseis de plantas indicou que na região existia densa floresta tropical, habitada por cavalos, tigres dente-de-sabre, lagartos, capivaras, preguiças e tatus gigantes. Muitos desses animais podem ter sido fonte de alimentação para os povos que habitavam a região. Esses povos praticavam a caça e utilizavam o fogo para cozinhar, defender-se e atacar os inimigos.

Entre os sinais que deixaram, os arqueólogos identificaram mais de 25 mil figuras rupestres, em mais de 200 abrigos. Foram encontrados ainda fragmentos de fogueiras, machados, facas e raspadores. Acredita-se que esses vestígios podem chegar a ter 48 mil anos de idade.

Muitos pesquisadores, entretanto, questionam os resultados das pesquisas realizadas em São Raimundo Nonato. Como lá não foram encontrados fósseis humanos com idade superior a 8 mil anos, eles acreditam que as fogueiras e as pedras polidas podem ter sido produzidas pela ação de incêndios ou raios e não por seres humanos. A dúvida vai persistir até a descoberta de um vestígio ósseo que comprove a presença humana em períodos mais remotos.

Caverna de Pedra Pintada

Em 1996, pesquisadores norte-americanos, brasileiros e franceses, sob a coordenação da arqueóloga Anna Roosevelt, comprovaram que seres humanos na região da Amazônia há pelo menos 11 200 anos.

Os vestígios foram encontrados na Caverna da Pedra Pintada, no município de Monte Alegre, à margem esquerda do rio Amazonas. Entre os inúmeros vestígios da presença humana, havia fragmentos de objetos, pinturas rupestres, lascas de cerâmica e restos de fogueiras e de ossos de animais carbonizados.

A partir desses vestígios, os pesquisadores constataram que os habitantes da Pedra Pintada dominavam o fogo e eram caçadores.

Para a pesquisadora, diversos sítios no Brasil constituem provas mais do que convincentes de que a ocupação da América se deu há mais de 20 mil anos.

Povos do litoral

Por volta de 6 mil anos atrás, parte do litoral brasileiro (do Espirito Santo ao Rio Grande do Sul) foi habitada por povos seminômades, com certa unidade cultural em função da adaptação ao ambiente litorâneo. Deixaram como vestígios de sua presença os sambaquis, palavra de origem tupi que significa “monte de mariscos”.

Os sambaquis foram utilizados para enterrar os mortos com seus objetos pessoais (enfeites, utensílios e armas), o que indica uma provável preocupação religiosa com a morte.

Os estudos dos sambaquis revelam aspectos da cultura dos povos litorâneos de nossa Pré-história. Esses povos formavam aldeias com cerca de 100 a 150 habitantes em média. Viviam da coleta, da caça e principalmente da pesca. Utilizavam instrumentos feitos de pedra (enfeites, facas, flechas, machados) e de ossos (arpões, agulhas, anzóis). Tinham o domínio do fogo e assavam os alimentos, que eram divididos entre os membros do grupo.

Durante cerca de 5 mil anos, os povos do sambaquis expandiram-se com brilho e vigor. Sofreram, por fim, o ataque dos índios tupi-guaranis, vindos do interior do território brasileiro.

Os ameríndios

Os ameríndios, os atuais índios americanos, são povos descendentes de grupos de caçadores paleolíticos da raça protomongólica provenientes da Ásia que, em datas ainda mal determinadas (entre 40.000 e 10.000 a.C.), atravessaram a placa de gelo que unia as duas margens do estreito de Bering durante as eras glaciais e se estenderam pelo continente americano, até então despovoado.
O seu posterior isolamento geográfico em relação ao Velho Mundo deu origem a uma evolução genética divergente, que resultaria na formação de um novo tipo racial de características físicas ligeiramente diferentes das do tronco asiático-mongólico, do qual se tinham afastado. Tal como os orientais, os ameríndios são geralmente de estatura baixa, cabelo negro e liso, apresentam pômulos altos e marcados e ausência de calvície ou de cabelos brancos. O tom de pele é acobreado e a prega mongólica dos olhos é menos marcada que nos seus primos asiáticos.
A grandeza da América provocou desde muito cedo o aparecimento de culturas e civilizações muito diferentes. Com a chegada dos colonizadores europeus, o destino de cada uma delas também sofreu diferentes alterações. Estas circunstâncias tornam complicada a tentativa de oferecer uma visão panorâmica dos ameríndios, uma vez que estes apresentam divergências ecológicas, históricas, etnolinguísticas, socioeconômicas, políticas, religiosas e demográficas. No entanto, dentro deste quadro multicolor, é possível encontrar um fundo comum: uma mesma história de colonização, formas comunitárias de organização, determinados traços comuns de expressão cultural e, principalmente na atualidade, problemas semelhantes de adaptação cultural, marginalização social e dominação cultural.

O contato entre europeus e ameríndios

Alguns estudos falam de 25 milhões de ameríndios e de milhares de culturas autóctones repartidas por todo o continente, no início do séc. XVI. A maior parte da população concentrava-se nas duas regiões onde tinham surgido as grandes civilizações pré-colombianas: América Central (Centro e Sul do México e Guatemala) e os Andes centrais (Equador, Peru e Bolívia). A colonização europeia acarretou uma transformação radical desta situação, ao iniciar-se um processo de genocídio, etnocídio e aculturação que continuou de forma generalizada, ao longo do séc. XX, e que ainda existe em algumas regiões, como a Amazônia. Guerras de conquista, submissão dos indígenas à escravatura, extermínio programado de alguns povos e, principalmente, epidemias devastadoras, até então desconhecidas na América, dizimaram brutalmente a população indígena.
Tão importante quanto a eliminação física (genocídio) foi o etnocídio ou desaparecimento de muitos povos, que perderam a sua consciência étnica e foram absorvidos pela cultura e pela organização cultural dos seus conquistadores através da mestiçagem e de diversas políticas de assimilação cultural (evangelização, reorganização espacial, urbanização, escolarização etc.). Este processo de assimilação de uma cultura é denominado aculturação. Costuma-se considerar que um grupo étnico está aculturado quando ainda não perdeu a sua consciência de pertencer a uma etnia diferente, mas sim a totalidade ou a maior parte dos traços culturais que o definiam, adotando os da outra sociedade (neste caso, a sociedade ocidental dominante).
Os ameríndios foram expulsos, assimilados ou exterminados, principalmente das regiões preferidas pelos europeus (as franjas costeiras e as zonas economicamente estratégicas), mas os resultados nem sempre foram dramáticos: em algumas regiões, como na América Central ou nos Andes centrais, a colonização não pôde exterminar nem absorver totalmente a grande massa de população indígena, limitando-se a uma aculturação parcial da mesma, enquanto nas regiões pouco povoadas da América do Norte a população indígena foi exterminada sistematicamente.
Por outro lado, nas regiões afastadas em que a ocupação europeia só ocorreu em datas tardias, o contato indireto provocou simplesmente a transformação autônoma das culturas ameríndias.

• Diferenças regionais: entre o extermínio e a sobrevivência

Na América do Norte, os ameríndios sobreviventes se concentraram nos territórios interiores das grandes pradarias e nas Montanhas Rochosas, com exceções como os iroqueses de Nova Iorque e os povos da costa da Colúmbia Britânica. Um estado com uma especial concentração indígena é Oklahoma, território para onde foi desterrada a maioria dos índios que habitava o leste do Mississippi em meados do séc. XIX. Na extensa região setentrional do México só sobrevivem populações índígenas nos refúgios naturais da Sierra Madre Ocidental.
Nas Antilhas, pela sua condição de ilhas sem lugares naturais de refúgio, o genocídio foi quase total e os índios sobreviventes foram absorvidos pela mestiçagem. No istmo centro-americano, os colonizadores ocuparam as terras ricas e altas do interior e deixaram as zonas baixas selváticas para os indígenas: a Mosquitia hondurenha e nicaraguense, a zona entre o Panamá e a Colômbia e a região colombiana do Chocó. As costas da Venezuela e da Colômbia, pelo contrário, foram regiões de ocupação europeia, onde os índios desapareceram, exceto nos dois nichos marginais: a Serra Nevada de Santa Marta, de difícil acesso, e a península desértica da Guajira, onde os indígenas desenvolveram uma nova cultura como pastores de cabras.
No Brasil, o genocídio das populações litorais de fala tupi-guarani foi completo. No vale amazônico, a penetração portuguesa e espanhola foi mais tardia e limitou-se principalmente às margens dos grandes rios, que também eram, em tempos pré-colombianos, os hábitats preferidos de colônias indígenas. As opções para os indígenas foram o confronto direto, em que alguns destes povos terminariam sendo severamente destruídos, a submissão e aculturação ou a fuga para zonas inacessíveis da selva anteriormente despovoadas, onde podiam manter a sua independência.
No Brasil do final do séc. XIX e princípio do séc. XX, o auge da exploração da borracha amazônica e da penetração ocidental em quase toda a bacia amazônica foi uma época de genocídio, etnocídio e aculturação em grande escala. Para a extração desta borracha natural, recorreu-se à escravização dos índios. Atualmente, a pressão sobre os territórios e as culturas indígenas continua, com a criação ou expansão da pecuária à custa dos territórios tradicionais dos nativos, as prospecções a cargo de companhias petroleiras, as invasões de colonos sem terra, garimpeiros em busca de ouro etc.
No Cone Sul, o baixo relevo que facilitava a conquista militar e a escassa densidade da população indígena levaram a um genocídio ou etnocídio quase total. As campanhas colonizadoras uruguaias e argentinas e a grande invasão de imigrantes europeus provocaram a extinção dos indígenas na faixa central da bacia do Rio da Prata. No Chile, desde o norte até ao rio Bío-Bío, os colonos ocidentais absorveram a população indígena através da mestiçagem. O mesmo aconteceu no sul do Paraguai. Atualmente, os índios se concentram basicamente em dois lugares: nas regiões andinas centro-meridionais do Chile e da Argentina, onde o grupo Mapuche resistiu à invasão ocidental até 1881, e na planície arbustiva do Chaco paraguaio-argentino, onde habitam grupos que nos sécs. XVIII e XIX desenvolveram culturas de caçadores semelhantes às da América do Norte. Nas regiões subárticas da Patagônia e nos fiordes e ilhas do sul do Chile, a população indígena é muito reduzida.
A América Central e os Andes centrais constituem um caso à parte. Salvo na estreita faixa marítima peruano-equatoriana, onde a população foi absorvida pela mestiçagem com brancos e negros, os altos índices de densidade demográfica tornaram impossível o extermínio ou a assimilação total, apesar das inúmeras epidemias verificadas nos dois primeiros séc.s de colonização.

Distribuição geográfica e demográfica dos ameríndios

Quando atualmente se propõem cifras da população ameríndia é necessário ter em conta que estas se referem sempre a valores aproximados, já que não existem censos rigorosos, além do fato de não existir um critério nítido sobre que indivíduos são exatamente índios. O critério mais habitual considera índio a pessoa que apresenta traços culturais indígenas, com especial atenção ao critério linguístico, o que exclui da contagem milhões de indivíduos racialmente indígenas que foram assimilados no passado pela sociedade e cultura ocidentais. Mesmo com as dificuldades estatísticas, as linhas básicas da estrutura demográfica indígena são, no entanto, bastante claras. Apesar da ocupação europeia, do genocídio e das migrações internas, a distribuição atual obedece a um esquema estrutural muito semelhante ao do passado. Os 90% dos 45 a 50 milhões de ameríndios que vivem no continente americano se concentram na América Central e nos Andes centrais.
Alguns autores classificam as etnias ameríndias, em relação à sua dimensão demográfica, em macroetnias e microetnias, entendendo as primeiras como aquelas que, pelos seus elevados contingentes de um milhão de indivíduos ou mais, formam grupos sociologicamente relevantes dentro dos seus respectivos países, em contraste com as segundas, cujo reduzido número de indivíduos, de umas dezenas de milhares até poucas centenas, faz delas minorias étnicas de pouco peso específico. É nas regiões onde se concentram as maiores densidades indígenas que também se encontram as macroetnias (Naua, Mixteca, Zapoteca, Tarasco, Maia, Quíchua e Aimará). Os países com maior população indígena em relação à população total são Bolívia, Guatemala, Peru, Equador e México.
No entanto, a escassa proporção ou número de indígenas em alguns países oculta a sua relativa importância ou o seu predomínio em determinadas zonas ou regiões. Exemplos deste tipo seriam o povo Mapuche, que conta com cerca de 600.000 indivíduos, concentrados principalmente nas regiões chilenas de Los Lagos e Araucanía; os Guajiro, que somam uns 100.000, localizados na reduzida extensão da península com o mesmo nome, e os Misquito, também uns 100.000, estabelecidos nas selvas costeiras atlânticas de Honduras e da Nicarágua.
A superfície ocupada pelas etnias indígenas deve ser outro elemento a considerar quando se quer avaliar rigorosamente a importância da população indígena de um país. Deste modo, quando consideramos apenas os critérios culturais expostos, o Paraguai seria um país com uma escassa população indígena. No entanto, é importante observar que a maioria da população branca e mestiça ocupa apenas um quarto do território, ou seja, a zona central no eixo do rio Paraguai, enquanto o resto do país é majoritariamente indígena, embora com uma baixa densidade populacional. Esta mesma pontualização pode servir para uma boa parte do território da Amazônia, onde os grupos étnicos são pequenos e a densidade da população baixa, mas onde os índios constituem em algumas regiões o contingente majoritário da população e às vezes o único, como sucede nas reservas e nos territórios indígenas.

A nova realidade cultural indígena

Em toda a extensão do continente, os ameríndios enfrentam processos de aculturação, de assimilação e de inserção em um mundo contemporâneo cada vez mais globalizado, que se transforma a rapidamente. A intensidade deste processo, assim como os resultados e as respostas que estão provocando nas sociedades indígenas, são, no entanto, muito diferentes, embora se possa afirmar que existe uma tendência geral à homogeneidade cultural. Em linhas gerais, é possível distinguir três grupos no que se refere à situação dos ameríndios que enfrentam os processos de aculturação:
— As populações de etnia ameríndia, que foram assimiladas totalmente ou quase totalmente pela sociedade nacional, ou seja, aquelas que perderam a totalidade dos seus traços culturais mais importantes (língua, identidade própria, estruturação coletiva interna), embora conservem alguns vestígios menores (fundamentalmente, formas fossilizadas do folclore), são muito numerosas, mas não estão refletidas em nenhuma estatística, porque aparecem nos censos como parte da população nacional.
— No outro extremo encontram-se os grupos indígenas que mantêm pouca ou nenhuma interação com o mundo exterior, com formas de vida muito pouco influenciadas pela civilização ocidental. Reduzem-se a algumas civilizações que se encontram em zonas de difícil acesso da selva amazônica. Estes grupos são os mais vulneráveis ao contato com o mundo dos brancos, que constitui um choque brutal de efeitos traumáticos para estas pequenas sociedades dotadas de uma tecnologia simples. Por esse motivo, algumas décadas atrás os países "adotaram" essas sociedades, com o objetivo de diminuir os efeitos da onda de choque modernizadora e possibilitar, assim, uma adaptação lenta à nova situação de interação cultural.
— A maioria dos grupos étnicos do continente encontra-se em um processo intermediário entre estes dois extremos, em estados e situações mais ou menos intensos de aculturação e integração. As políticas integracionistas que os países americanos vêm desenvolvendo desde a década de 1940 e os já citados processos de globalização mundial, aceleram cada vez mais este processo. Atualmente, a maioria dos povos indígenas é parcial ou totalmente bilíngue, depende dos produtos ocidentais manufaturados e está integrada aos circuitos da economia monetária, embora marginalmente. Deste modo, são povos que assimilam elementos cristãos na sua vivência religiosa, estão parcialmente alfabetizados e escolarizados e desfrutam de algum tipo de assistência sanitária, para citar apenas alguns tipos de aculturação mais generalizados.

• A migração para as cidades

Um fator bastante significativo que está acelerando o processo de aculturação é a crescente migração dos indígenas para as cidades. Desde as décadas de 1950 e 1960, milhões de indígenas emigraram para os arredores das grandes e médias cidades, onde a maioria vive em situações de proletarização e subproletarização (economia informal, mendicidade, delinquência, bairros miseráveis).
Inicialmente, a identidade étnica pode ser uma estratégia de adaptação dos recém-chegados às condições hostis da cidade, já que em muitos casos os indígenas se agrupam em bairros étnicos, reforçando, deste modo, seus laços comunitários para gerar assim redes de solidariedade social. Mas com a passagem do tempo, a tendência geral é a absorção cultural na sociedade majoritária. No entanto, o processo de integração está cheio de conflitos: desorientação social, crise de valores e de identidade, conflitos intergeracionais, desintegração e violência familiar, alcoolismo e dependência de drogas, delinquência etc.

• A nova evangelização

A religião continua a ser um agente importante nos processos de aculturação. A ação evangelizadora da Igreja Católica, que alcançou a maior parte dos indígenas da América Latina, transformou-se em um veículo fundamental de aculturação, principalmente quando se leva em conta que numerosos países lhe delegaram trabalho de educação, pelo menos parcialmente. No entanto, o êxito da Igreja não foi completo, considerando que a maioria dos indígenas ainda combina práticas católicas com outras procedentes da religião tradicional (como o xamanismo, na maioria dos grupos) ou mantêm sistemas religiosos que, embora formalmente católicos, são fundamentalmente de tipo sincrético (como ocorre entre os Maia, Quíchuas e Aimará).
Maior eficácia aculturadora parecem ter os grupos protestantes e as seitas de inspiração cristã que, desde a década de 1960, tiveram um êxito espetacular entre os indígenas, especialmente nas suas variantes mais puritanas e fundamentalistas. Em alguns países, alcançou proporções de fenômeno de massas.
O protestantismo indígena pode ser interpretado como uma reivindicação de autodeterminação religiosa, em relação à sociedade dominante ocidental. O caráter não-hierárquico nem centralizado das seitas confere aos indígenas o controle sobre sua vida religiosa. Por outro lado, a identificação entre o poder político e o religioso tem efeitos de reorganização e coesão política no seio das comunidades indígenas. Algumas destas seitas têm um forte componente messiânico-milenarista, que expressa, num contexto simbólico-religioso, os anseios de libertação em relação a situações de frustração geradas pela dominação e pela agressão cultural. Contudo, todos estes efeitos integradores se transformam em forças centrífugas quando a conversão no seio de uma comunidade não é total, o que faz com que os seus integrantes se dividam em facções religiosas opostas.

A luta política: o movimento indigenista pan-americano

Nos últimos anos criou-se uma organização indígena em escala continental, que tem a sua expressão no indianismo, ideologia nacionalista formulada por indígenas que lutam por uma reconciliação entre a tradição e a modernidade, a partir da reivindicação do direito de autodeterminação dos povos.
O indianismo não deve ser confundido com o chamado indigenismo, que teve a sua origem nas primeiras décadas do séc. XX, pela mão de intelectuais brancos e mestiços, que se concretizou a partir de 1940 em políticas estatais paternalistas de proteção e tutela dos indígenas através de organismos criados para esse fim. O indigenismo, com o discurso de que o índio deve ser protegido e não explorado, constituiu uma revolução interna no seio das comunidades nativas, ao mesmo tempo que exercia uma influência fundamental no aparecimento da consciência indígena, pois abriu espaços sociais para os índios e lhes ofereceu instrumentos que permitiam que sua voz fosse ouvida.
O discurso paternalista do indigenismo evoluiu posteriormente para o neoindigenismo atual, do qual o indianismo é o devedor intelectual direto. O neoindigenismo teve o seu ponto de partida na Declaração de Barbados em 1971, formulada por um grupo de antropólogos que não aceitavam o paternalismo tutelar do Estado e exigiam que os indígenas fossem reconhecidos como capazes de dirigir os seus próprios destinos. Este manifesto serviu como documento-base para as numerosas organizações indígenas que surgiriam nos anos seguintes. As principais linhas do discurso indianista passam pelo reconhecimento de uma filosofia indígena comum, baseada em características básicas: a concepção do saber como integração inseparável de todas as vias do conhecimento (religião, arte, ciência), o coletivismo e o comunitarismo frente ao individualismo ocidental, a homogeneidade indígena dentro da pluralidade, um possível ecologismo primitivo e uma harmonia espiritual com o cosmos, a organização horizontal em vez de vertical e classista e a harmonia e complementaridade nas relações entre homens e mulheres. No entanto, esta ideologia reflete muito mais uma imagem ideal das sociedades indígenas que a sua situação real. O indianismo também se concentra em reivindicações políticas pragmáticas e concretas: reconhecimento da propriedade da terra, programas de capacitação indígena, educação bilíngue etc.
Desde a década de 1970, vem se consolidando um fenômeno de transnacionalização do movimento indígena, que começa com a constituição, em 1975, do Conselho Mundial dos Povos Indígenas, e em 1980, em Ollantaytambo, do Conselho Índio da América do Sul, onde se decidiu adotar o vocábulo índio como termo-símbolo da luta para todas as nações indígenas do continente. Desde então, as organizações indígenas multiétnicas não fizeram outra coisa senão multiplicar-se, tanto em escala nacional quanto internacional, e uniram os seus esforços à organização internacional indigenista que vem se organizando paralelamente nas últimas décadas.
O programa essencial dos movimentos indígenas atuais pode ser resumido em um ponto: reconciliar a tradição ancestral (as formas comunitárias e coletivas de vida, características das sociedades tradicionais) com a sua integração na sociedade mundial contemporânea, caracterizada por uma globalização crescente.

• Macroetnias, microetnias e Estados nacionais

As macroetnias apresentam vantagens que as colocam numa melhor posição para resistirem à perda crescente da identidade étnica. É evidente que as altas densidades de população indígena na América Central e nos Andes centrais, conferem a estas regiões e aos países que as integram, caracerísticas singulares em relação ao resto do continente, pois geram formas de relação diferentes com as sociedades nacionais dominantes. Se no caso das microetnias se pode falar de uma população indígena minoritária e fragmentada, cuja relação com os Estados surge das políticas indigenistas baseadas em critérios de minoria étnica, no caso das macroetnias trata-se de grandes massas sociais, em alguns casos majoritárias, que chegam a manifestar-se com reivindicações que vão além do étnico, tomando por vezes forma de conflitos políticos ou de classe. São, definitivamente, grupos que exigem dos governos políticas de alcance nacional. Enquanto as microetnias devem lutar fundamentalmente de fora para preservar a sua herança cultural e identidade étnica, as macroetnias fazem-no de dentro, utilizando os próprios mecanismos da sociedade dominante (associativismo, campanhas eleitorais, sindicatos, publicações, emissoras de rádio etc.).
A relação, entre a sociedade nacional e os grupos pequenos, parte do fato de estes serem reduzidos à margem dessa sociedade e centra-se basicamente na procura de um equilíbrio entre a sua existência no seio de um Estado não-indígena e o direito de controlar o seu patrimônio material e cultural tradicional (território, língua, cultura, organização interna). Como consequência, a relação mantém-se em um nível regional e em nenhuma medida afeta as nações no seu conjunto. As reivindicações indígenas se centram no reconhecimento da autonomia nos territórios ancestrais, mais ou menos pequenos em relação ao território estatal, e o compromisso do Estado se reduz fundamentalmente a uma tutela de índole paternalista que oferece proteção legal diante de violações do território indígena, assim como programas de desenvolvimento locais. A relação entre os indígenas, mobilizados ou não em defesa dos seus interesses, e o Estado, em teoria protetor-tutor, se desenrola por meio da mediação de organismos estatais indigenistas.


Colonização Portuguesa no Brasil

No período pré-colonial, as costas brasileiras passaram a ser exploradas apenas a partir dos anos de 1501 e 1502. Ainda havia descaso de Portugal com relação à nova terra: o comércio com as Índias era mais vantajoso e menos dispendioso. Enquanto o povo das Índias já possuía uma tradição comercial, baseada em especiarias já acabadas enquanto produtos, o índio no Brasil realizava suas atividades econômicas apenas para sua subsistência. Portanto, toda a mercadoria no Brasil exigia trabalho do português em sua extração.

O pau-brasil era o objeto de atividade de extração para fins comerciais: pouco foi aproveitado dos demais recursos em estado natural neste primeiro período. A exploração imediata do pau-brasil caracterizou-se pela extração predatória, pois o único trabalho que o português empregava nesta atividade era o corte e o transporte das árvores. Mais tarde, nos anos de 1515 e 1516, as expedições à Terra de Santa Cruz tornaram-se mais frequentes e de maior importância. A fase anterior tratou-se de expedições também destinadas à pesquisa geográfica, ao passo que estas novas expedições já caracterizavam-se pelo interesse comercial e também pelo intuito de asseguramento do domínio colonial contra os corsários. Desta forma, pouco a pouco foi propiciado o melhor conhecimento da costa brasileira.

Foi mínima a ocupação portuguesa nos primeiros anos após a descoberta da nova terra por Portugal. O perfil dos primeiros habitantes portugueses em solo brasileiro é referente aos chamados degredados: o severo conjunto de leis manuelinas foi responsável pela condenação, por vezes injusta, de muitos portugueses ao degredo (banimento). De qualquer forma, o número de habitantes portugueses em território brasileiro era mínimo em relação aos quase dois milhões de índios aborígines (número estatístico aproximado, pois na verdade é praticamente impossível determinar o número exato de habitantes aborígines).

Foi no ano de 1531, com Portugal sob o reinado de D. João III, que a política colonialista portuguesa em relação ao Brasil passou a tomar novos rumos: a expedição de Martim Afonso de Sousa ao Brasil manteve os objetivos das expedições anteriores, porém acrescentando-se a tais objetivos a efetivação da ocupação portuguesa em solo brasileiro. Portanto, a expedição de Martim Afonso de Sousa é tomada como o marco do início do processo de colonização portuguesa no Brasil. Uma nova mentalidade econômica que se afirmara a partir do século XV a antiga ordem feudal fora substituída pelos territórios das nações européias unificados por um poder centralizante. À orientação econômica geral que estas nações passaram a seguir em sua busca por terras que oferecessem vantagens comerciais é resumida no conceito de mercantilismo. Essa orientação, que na verdade nunca obtivera como origem uma formulação científica, baseava-se em preceitos como: o acúmulo de riquezas através da detenção de metais preciosos, o que garantiria o poder econômico do Estado; o desenvolvimento manufatureiro como exclusividade da metrópole; a garantia dos domínios comerciais no exterior; o superávit da balança comercial, que originou políticas protecionistas e intervencionistas por parte dos estados. O conceito mercantilista teve projeção no processo de colonização da América paralela e contraditoriamente à projeção de certas características do mundo feudal em extinção, como pode ser observado na futura organização da colônia em capitanias.

A CONQUISTA DA AMÉRICA

A conquista da América: a expansão espanhola (1492/1572).

O expansionismo é uma característica das sociedades de classes, onde os povos datados desde a antigüidade caracterizariam esta agressividade expansionista. No contexto da América, o fenômeno se verificava, durante o século XV, pelo movimento distribuído entre os estados asteca e inca, que se encontravam então em pleno movimento de expansão, e possuiriam um governo fortemente centralizado (Estado) assim como um forte aparato militar de conquista. Desta maneira se formariam os grandes impérios com suas famosas capitais e federações: os exemplos de Tenochtitlan (Astecas) e Cuzco (Incas), na América.

1. A Chegada européia e seus imaginários.

No final do século XV, na mesma época em que os astecas e os incas estavam no auge da formação de seus impérios, partiria das Espanha a expedição de Colombo que tinha como roteiro original a expansão rumo ao oriente, navegando em direção ao oeste, no objetivo de contornar a terra até ao leste. Foi assim que ele encontrou a América, ainda que não se desse conta da localização (contam as crônicas que mesmo pensara estar atingindo a região do Japão!!). Logo depois Pedro Álvares Cabral chegava ao Brasil. De início, o novo continente não despertou interesse, mais à medida que outros estados europeus começaram a manifestar o seu interesse pelas terras americanas, os países ibéricos (Espanha e Portugal) tratariam de assegurar a posse com a ocupação, resultando disso um novo fenômeno histórico: a colonização mercantilista, um novo tipo de expansão, desconhecido dos antigos.

O IMAGINÁRIO CRISTÃO: olhares dos conquistadores.

Quando da chegada ao Novo Mundo e sua conquista, os europeus definiam a si mesmos, antes de mais nada, como cristãos, e foi nessa qualidade que chegaram à América. Por isso, a ocupação da América foi concebida pelos ibéricos como um dever ou uma missão religiosa, cujo objetivo último era difundir a fé cristã e a promoção da cristianização dos índios na salvação de sua alma.

É válido lembrar que o primeiro encontro entre o navegador e o indígena celebraria um misto de espanto, fascínio e terror, no que se deve tal fato, principalmente ao contraste cultural dos povos: a visão de superioridade cristã do europeu, de frente com um indivíduo não–cristão, e portanto, dado como ser “primitivo, inferior e selvagem”.

O discurso era afirmado pela realeza e seus aventureiros e era essa a ocupação de atores deste contexto como os jesuítas: esse consenso cultural inicial havia caminhado para a elaboração de uma política indigenista voltada à conversão dos índios, uma vez que o lugar do novo mundo ainda seria mistificado pela idéia de feitiços que poderiam cercar as populações primitivas.

2. A chegada dos Espanhóis: “deuses ou demônios”.

Os espanhóis encontraram na América uma diversidade social, como incas, maias e astecas. O choque cultural entre elas e o invasor foi profundo e irreversível.

Uma das expressões desse choque se revela nas diferentes atitudes assumidas por espanhóis e astecas diante dos metais preciosos. Enquanto os primeiros tinham se lançado à aventura das navegações em busca de ouro e prata, os últimos viam nesses metais apenas um material útil para a confecção de adornos.

Impressionados com o comportamento dos espanhóis diante daquele metal amarelo, um indígena chegou a dizer que "iguais a macacos, (eles) enchiam as mãos com ouro: ‘nós, espanhóis, sofremos de uma doença do coração, cujo remédio específico consiste no ouro’, justificaria o conquistador do México Hernán Cortez.”.

3. “Duas culturas em conflito: o invasor Cortez”

Os Conquistadores – no início do século XVI, os espanhóis organizaram várias expedições para reconhecer e conquistar o continente americano, principalmente sua parte central. Em geral, elas partiam do atual território de Cuba, já dominado pelos espanhóis. A de maior significado foi a expedição comandada por Hernán Cortez, que destruiu o Império Asteca, na atual região do México. Os primeiros contatos causariam

talvez um sentimento de fascinação, mas também de indignação ou intolerância do conquistador sobre os usos e costumes da população local, sempre dada como inferior ou selvagem na visão espanhola e dos demais colonizadores: as práticas culturais ditas como obra do demônio, e que por isso deveriam ser exterminadas.

Por este aspecto, Hernán Cortez, foi durante muito tempo, foi celebrado por alguns como o criador do México, sem levar-se em consideração o massacre social cultural por ele promovido. A Construção da Nova Espanha – quando Cortez e seus soldados desembarcaram na atual Vera Cruz, México, os astecas pensaram que eles eram deuses, montados em grandes veados (os povos americanos não conheciam o cavalo).

Em vez de lutar, o imperador Montezuma enviou emissários com presentes e pedidos para que o invasor se retirasse: Cortez, porém, vinha para conquistar o império, utilizando entre outros pretextos o ideal de conquista sobre os povos pagãos, que não aceitassem a submissão pela cultura cristã, pois era justificado e santificado a guerra de conquista para esta finalidade, dado o imaginário da formação marítima dos reis católicos de Espanha.

Os espanhóis traziam cavalos e canhões, desconhecidos dos nativos, e estavam em inferioridade numérica. Para compensar essa desvantagem, esforçaram-se por conhecer a cultura daquele povo, o entendimento da língua e conhecimento de costumes; descobriram que eram considerados deuses e que o domínio asteca sobre os povos da região era frágil, imposto pelo medo.

Os espanhóis formaram alianças com os inimigos dos astecas e procuraram obrigar Montezuma a mostrar os mapas da terra e os livros dos impostos, pois tinham pressa em encontrar as lendárias riquezas do império asteca: o ouro sem dúvida, eles o desejavam com uma sede furiosa. Atitudes como essa, eram já assinaladas desde os dizeres de Colombo onde “a melhor coisa do mundo é o ouro, é capaz de enviar almas aos céus”, o que de fato fizeram.

4. O massacre Azteca – um incidente, entretanto, precipitou o confronto aberto, no que precisando retornar a Vera Cruz, Cortez passou o comando das tropas em Tenochtitlan para Pedro Alvarado. Durante uma festa religiosa, tomado pelo terror ou espanto que causava as práticas do festejo asteca, que seria comparado talvez a uma cena selvagem ou diabólica, na visão do europeu, seu líder Alvarado ordenou aos soldados que fechassem as portas do templo principal e massacrassem os nativos.

O chão do templo se encharcou com o sangue de mais de mil astecas. Os que estavam fora descobriram dessa forma que os espanhóis não eram deuses. Voltando a Tenochtitlan, Cortez tentou convencer Montezuma a acalmar seus súditos. Mas estes já não ouviam o imperador. Seguindo ordens de Cuitlahuac, irmão de Montezuma, lançaram-se ao ataque: os espanhóis foram alcançados fora da cidade e derrotados na Noite Triste, de 30 de junho de 1520 (Noite da vitória para os astecas)

“A queda de Tenochtitlan” – Cortez se refugiou em Tlaxcala, cidade inimiga dos astecas. Enquanto isso, Tenochtitlan foi tomada por um surto de varíola, doença transmitida pelos europeus e contra a qual os astecas não tinham defesa. Cuitlahuac morreu, e o novo imperador passou a ser Cuauhtémoc (águia que caí, no idioma indígena).

Com 650 soldados de infantaria, 194 mosqueteiros, 84 cavaleiros e milhares de nativos aliados, Cortez atacou Tenochtitlan. Repelido pelos guerreiros aztecas, cercou a cidade e envenenou as fontes de abastecimento de água. Milhares de aztecas morreram em 75 dias de fome, sede, doenças e combates. A capital do império caía nas mãos do invasor. Cuauhtémoc sofreu terríveis torturas para mostrar o lugar onde eram guardados os tesouros. Apesar de lhe queimarem os pés, este nada revelou. Cortez mandou cortar-lhe então a cabeça.

5. O fim do Império Inca – uma vez dominada a região central do continente, os espanhóis se voltaram para a América do Sul. Nessa empreitada. destacou-se a expedição comandada por Francisco Pizarro, um militar de ascendência nobre que submeteu o poderoso Império Inca. A luta interna de líderes pelo trono Inca, facilitou sua ação. Quando Pizarro chegou à região, em 1532, Atahualpa já havia derrotado o irmão.

Com a chegada dos invasores, saiu da cidade com a corte e cerca de 30 mil soldados, aceitando encontrar-se com Pizarro, em missão de paz, que distribuiu soldados no local do encontro, com o objetivo de surpreender e capturar o imperador.

A um grito de Pizarro, os espanhóis atiraram-se sobre a multidão. Prenderam o imperador e mataram quase todo o cortejo. Para libertação de Atahualpa, exigiram 1 quarto cheio de ouro e dois de prata. O império se mobilizou: estatuetas de deuses e adornos foram derretidos. Em alguns meses, os aposentos estavam cheios. Pizarro separou as partes do rei, Igreja, soldados e a maior, para si. “Só a liteira do Inca, seu troféu de general, pesava 83 quilos de ouro puro, no que Atahualpa foi condenado à morte, prenunciando o que iria acontecer depois com a civilização Inca.”

O governo de Pizarro organizaria a permanência de postos de comando, composto por vários Incas ligados a Huáscar, a fim de dominar mais facilmente o império dividido. A conquista final veio em seguida, onde em 1533, os espanhóis tomaram Cuzco e Quito; em 1535, fundaram Lima, que se tornou a nova capital das terras conquistadas.

As colônias da Espanha – no panorama consolidado, os espanhóis dividiram as terras conquistadas em quatro vice-reinos: Nova Espanha, Nova Granada, Peru e da Prata. Ao lado deles, criou quatro capitanias gerais: Cuba, Guatemala, Venezuela e Chile. Para administrá-los, o rei nomeava vice-reis e capitães-gerais, com poderes abrangentes. Os governantes contavam com a ajuda das audiências, tribunais responsáveis pela justiça, Igreja, forças armadas, finanças, mineração e comércio. Outro organismo de governo eram os cabildos, espécie de câmaras municipais, que controlavam a polícia, fixavam impostos e faziam as leis das vilas e cidades.

6. Religiosidade e Política Colonial

Igreja e realeza trabalhavam juntas e se auxiliavam mutuamente para controlar as colônias. Assim, o papa concedeu ao rei o direito de administrar os interesses da Igreja nas Américas. Em troca, o rei se comprometeu a ajudar na expansão do catolicismo. A Igreja atuava em duas frentes principais: as missões, que consistiam em aldeamentos destinados a catequizar os índios, integrando-os aos costumes europeus; e os tribunais da Inquisição, instalados na Nova Espanha e no Peru, que julgavam os hereges, isto é, os acusados de divulgar idéias que a Igreja considerava contrárias à fé cristã.

Logo quando os espanhóis chegaram à ilha de São Domingos, nas Antilhas, os índios foram dominados e “repartidos” entre os povoadores. Esse repartimento (“repartimiento”) de índios funcionava do seguinte modo: os grupos indígenas locais eram obrigados a fornecer aos espanhóis certa quantidade anual de trabalhadores, que por acordo seriam remunerados. Em 1509, o rei de Espanha legalizou o “repartimiento”, atribuindo a ele o nome de “encomienda” (encomenda de trabalhos). Assim os povoadores receberiam certo número de indígenas, que lhes eram encomendados e aos quais ficavam obrigados a proteger e cristianizar. Em troca, tinham o direito de exigir deles tanto serviço quanto tributos. Naturalmente os encomenderos não cumpriam a sua parte e os índios acabariam na prática escravizados. Esse sistema foi adaptado para servir aos espanhóis nas minas do Alto Peru e do México: os índios foram obrigados a fornecer certo número de trabalhadores, que deveriam ser empregados na atividade de mineração por um ano, sendo substituídos por uma nova turma. Tratava-se ainda do repartimiento, mas no México esse sistema ficou conhecido como Cuatequil e no Peru Bolívia, sendo denominado por Mita.

A primeira e maior preocupação do rei espanhol não era com os índios, e sim com a criação de medidas capazes de impedir o contrabando de metais preciosos. Daí a importância geral do exclusivo metropolitano, cuja função era a de transferir integralmente o ouro e a prata para a Espanha.

7. O Colonialismo Ibérico: paralelos de uma exploração

Como é sabido, o que asseguraria o sucesso do povoamento e da ocupação econômica do Brasil pelos portugueses foi a instalação da agroindústria açucareira. Mais bem-sucedidos do que os portugueses nas tentativas de exploração de riquezas minerais, os espanhóis logo encontraram o êxito com riquíssimas minas de prata.

Ouro e Prata para Espanha – no contexto das primeiras investidas espanholas no continente americano a partir da Ilha de Hispaniola (São Domingos e Haiti), de onde partiram Hernán Cortez e Francisco Pizarro para a conquista, trazendo como resultado respectivamente, o massacre dos povos asteca (México) e inca (Peru), fez-se a contínua busca por metais preciosos, que em falta na Europa, sobravam na América. Como todos os outros europeus que migravam para a América, os espanhóis vieram em busca de riqueza fácil e rápida. Tiveram sorte. Em 1545 descobriram as minas de prata (sendo a maior de toda a de Potosí), na atual Bolívia (então chamada de Alto Peru) e, no ano seguinte, no norte do México.

O Fundamento Metalista – entre 1503 e 1660, foram transferidas para a Espanha aproximadamente 300 toneladas de ouro e 25 mil toneladas de prata. No trabalho de exploração das minas foram empregados os índios, submetidos pela violência. O sistema colonial espanhol voltou-se unicamente para a obtenção de metais preciosos. Uma das áreas mais importantes era o golfo do México, onde se localiza o porto de Vera Cruz. De lá sairiam ouro e prata rumo a Sevilha, cuja Casa de Contratação controlava o comércio colonial.
As epidemias – a chegada dos estrangeiros, ou dos bárbaros europeus, alterou o equilíbrio existente, com a introdução de novas armas e maneiras de guerrear. Porém nenhuma arma foi mais destrutiva com as epidemias que os europeus trouxeram.

Os habitantes da América estavam isolados do resto do mundo, de modo que não tinham desenvolvido defesas naturais contra epidemias que eram comuns em outras partes do mundo. Assim, ao entrarem em contato com os brancos, os povos americanos foram vítimas do choque microbiano e virótico que os dizimou. Considerando apenas os habitantes das Antilhas, do México e do Peru, estima-se que as doenças de origem européia ceifaram perto de 3/4 da população.

O primeiro surto de varíola ocorreu no México em 1522, vitimando os astecas. Em 1545 espalhou-se na mesma região uma espécie de tifo que atingiu também o Peru. Em 1558, a varíola chegou ao Peru. No Brasil, em 1563, a doença dizimou cerca de 3/4 da população da Bahia, fazendo vítimas em Pernambuco e S. Vicente: os indígenas eram vulneráveis até a gripe, assim como não teriam também nenhuma defesa contra o sarampo.

Na região da Meso-América, onde viviam os astecas e os maias, a população de 16,8 milhões de habitantes existentes em 1534 ficou reduzida a 1,9 milhões em 1595, devido à presença espanhola. A mesma catástrofe demográfica se repetiu por toda a América.

Olhares Indígenas – a chegada dos espanhóis foi um choque para quase os povos americanos, onde de acordo com a interpretação destes últimos, aqueles que fossem recém-chegados seriam em grande parte considerados como deuses ou enviados dos deuses.

Há relatos de que entre os astecas, os espanhóis haviam sido anunciados por inúmeros presságios: a vista de estrelas ou cometas cadentes, o incêndio de um templo asteca, água fervente no meio do lago, visões de homens galopando em animais semelhantes a veados, etc. Os sacerdotes maias falavam de uma árvore ou madeira sagrada que traria enormes mudanças. Os incas associaram os barbudos espanhóis ao regresso do deus Viracocha, e entre os próprios taínos, (primeiros indígenas a entrar em contato com o europeu), nas Antilhas também haveria crenças semelhantes.

Quando chegaram as primeiras notícias sobre os espanhóis, os astecas falavam de embarcações enormes como montanhas de cães ferozes e armas que cuspiam fogo. O imperador asteca, Montezuma, ficou angustiado: pensou que a serpente emplumada, o Deus Quetzacoalt, havia regressado. Mas nem ele nem os sacerdotes tinham muita certeza disso. Depois dos primeiros contatos e dos primeiros confrontos, as dúvidas se desfizeram. Os espanhóis passaram a ser considerados estrangeiros (dzules) pelos maias e bárbaros (popolocas) pelos astecas.

A conquista do Novo Mundo

A conquista da América pelos espanhóis iniciou-se no final do século XV, a partir da Segunda viagem de Colombo, a princípio sem obedecer a uma planificação, mas com objetivos gerais definidos.
A conquista da América pelos espanhóis iniciou-se no final do século XV, a partir da Segunda viagem de Colombo, a princípio sem obedecer a uma planificação, mas com objetivos gerais definidos.
A expansão marítima espanhola enquadra-se no processo de formação do capitalismo, caracterizado naquele momento pelas práticas mercantilistas adotadas pelos Estados Modernos.
A riqueza acumulada pelas cidades italianas e o progresso do expansionismo português acabaram por estimular a expansão espanhola, no sentido de obter riquezas, a princípio com o comércio de especiarias. Soma-se a isso o interesse da nobreza decadente em obter vantagens e o interesse da Igreja Católica que, na Espanha foi fortemente marcada pelo ideal de Guerra Santa devido à séculos de luta contra os mouros.

O início da conquista


A base inicial das conquista foi a Ilha de La Hispaniola (atual São Domingos), posteriormente substituída por Cuba. Dessas ilhas partiram as expedições para as demais e principalmente para o continente.
No continente as principais ocupações foram sobre a região do Panamá e do México, de onde partiriam novas expedições:

Do Panamá à outra regiões da América Central

- Peru Do México à Guatemala e Nicarágua

- Oriente ( Molucas e Filipinas)

- Califórnia

De uma forma geral, a participação da Coroa nesse processo de conquista foi reduzida. A Espanha recém unificada vivia ainda vários conflitos internos, envolveu-se nas Guerras da Itália (1494-1550) e no confronto com os luteranos, que se expandiam no Sacro Império, governado por Carlos V, rei da Espanha.
Dessa forma surgiram as capitulações, contratos a partir dos quais a Coroa permitia a conquista e exploração da América por particulares. Essas regras estabeleciam direitos e deveres recíprocos, característica medieval, e foi um estímulo para que elementos da pequena nobreza e de camadas populares participassem do empreendimento, pois a guerra e a conquista eram para esses grupos a única possibilidade de enriquecimento, sendo que, no caso da pequena nobreza, havia ainda a "cultura da guerra", característico do mundo feudal e mantido durante a Guerra de Reconquista

A conquista do México

A conquista do México foi liderada por Fernão Cortez, que em 1519 foi designado para comandar uma expedição à região. Durante os 15 anos anteriores Cortez viveu nas Antilhas, onde obteve terras, riqueza e prestígio. As primeiras conquistas ocorreram na região litorânea: San Juan de Ulua, fundaram Vera Cruz, e conquistaram Zempoala, onde obteve o apoio dos Totonacas e de outros povos nativos, até então dominados pelos Astecas, avançando até Tenochtchitlan, capital do império. O Primeiro contato foi marcado pela "diplomacia" que, no entanto, não durou muito tempo: estavam frente a frente os interesses distintos de dois impérios.
O confronto iniciou-se no final de 1519 e estendeu-se até agosto de 1521. Cortez, em desvantagem numérica conseguiu reforços das Antilhas e da Coroa – homens, cavalos e canhões -, de grupos indígenas e também da varíola. Os Astecas sitiados na capital durante meses acabaram sucumbindo, quando então a cidade foi tomada e os habitantes que restavam foram expulsos.

A Colonização Francesa no Canadá


Podemos considerar o movimento de colonização francês na América como extremamente atrasado, posterior aos movimentos de Portugal e Espanha e mesmo de Inglaterra e Holanda, e isso deve-se a vários fatores, internos e externos.

INTRODUÇÃO

Podemos considerar o movimento de colonização francês na América como extremamente atrasado, posterior aos movimentos de Portugal e Espanha e mesmo de Inglaterra e Holanda, e isso deve-se a vários fatores, internos e externos.

No século XV, enquanto Portugal e Espanha já haviam formado um Estado Nacional e iniciavam a expansão ultramarina, a França enfrentava a Inglaterra na Guerra dos Cem Anos (1337-1453) e sofreria as conseqüências dessa guerra ainda até o início do século XVI . Após a guerra, os reis procuraram aumentar a centralização do poder, mas enfrentaram problemas financeiros, a oposição de setores da nobreza feudal, ao mesmo tempo em que o país envolveu-se em diversas guerras.

Ainda no século XVI desenvolveram-se as “guerras de religião” envolvendo o Partido Papista dos católicos, apoiados pela realeza, e o Partido Huguenote, onde reuniam-se os protestantes calvinistas.

Do ponto de vista externo, a França teria que chocar-se com a Espanha, maior potência da época, por ser detentora de um vasto império colonial.


AS TENTATIVAS FRANCESAS


O rei Francisco I contestou o Tratado de Tordesilhas e os direitos de espanhóis e portugueses, porém não teve condições de confrontar-se com esses países na disputa por terras na América. A França ainda estava envolvida nas Guerras da Itália (1494-1516) e ao mesmo tempo priorizava os laços de comércio com os turcos otomanos no Mediterrâneo, garantindo lucros a uma parcela da burguesia. ]

Nesse período as expedições realizadas por Jacques Cartier foram financiadas pelo rei, que pretendia encontrar metais preciosos na região do atual Canadá, chamada então Nova França, mas que ainda não seria colonizada no século XVI.

Na Flórida houve uma tentativa de colonização comandada por Jean Ribaut entre 1563-67, onde foi fundada a cidade de Charlesfort, posteriormente destruída pelos espanhóis, assim como ocorreu no Rio de Janeiro, com a França Antártica, fundada por Nicolau de Villegagnon entre 1555-67, destruída pelos portugueses. Por trás das duas tentativas estavam os calvinistas; porém as guerras de religião fizeram com que essa política colonial fosse efêmera.
As disputas políticas internas, marcadas principalmente pelas “Guerras de Religião”, que se prolongaram pela Segunda metade do século XVI, impediram o desenvolvimento de uma política de expansão ultramarina.


A CENTRALIZAÇÃO POLÍTICA


O início da Dinastia Bourbon, com o reinado de Henrique IV, possibilitou maior centralização política, em um processo de formação do absolutismo, tendo na política mercantilista sua base econômica. O Estado concedeu o monopólio de colonização e de comércio à empresas privadas, responsáveis pela instalação dos primeiros núcleos de colonização efetiva, destacando-se Quebec, as margens do Rio São Lourenço. Porém durante as décadas seguintes o interesse no comercio de peles com os indígenas suplantou a política de colonização.

Durante o governo do Cardeal Richelieu, a colonização do Canadá foi estimulada, apesar da participação da França na Guerra dos 30 anos, contra os Habsburgos. Richelieu incentivou a formação da Companhia da Nova França, que recebeu o monopólio do comércio de peles, isenção de impostos, tendo a obrigação de transportar colonos católicos para a região e estimular a catequese.Os principais problemas enfrentados foram as guerras envolvendo tribos indígenas rivais, e as tentativas dos jesuítas em isolar os indígenas em missões, interferindo no comércio.

Durante o reinado de Luis XIV, a colonização ganhou grande impulso, a partir da política desenvolvida pelo ministro Colbert: O Canadá foi transformado em colônia real, submetida ao poder de Estado, e seria responsável por gerar lucros para a metrópole. Diversa medidas foram tomadas para aumentar a ocupação da região, que manteve-se porém pequena, dispersa, ligada principalmente ao comércio de peles.

A Colonização da América do Norte

No século XX, os E.U.A se consolidaram como a maior potência econômica e militar do globo terrestre. Sua política imperialista, com base econômica fundada no sistema capitalista, impulsiona um processo de dominação que, dizima culturas e leva países pobres à um imenso grau de dependência. Porém, nem sempre, esse país foi uma potência.

Assim como o Brasil, os Estados Unidos da América também tem um passado colonial, o qual "foi uma conseqüência do aparecimento do capitalismo na Europa". Então, como se deu esse processo? Quais os atores que participaram dessa trama? E Como se deram as transformações sociais neste território?

Os Primórdios.

O processo de colonização da América do Norte está inserido no contexto do expansionismo europeu ou a busca de novos caminhos para o Oriente, que se deu no fim da Idade Média, os quais portugueses e espanhóis foram pioneiros. No caso norte-americano, franceses, suecos, holandeses, espanhóis e ingleses empreenderam expedições no Atlântico Norte com o intuito de chegar às índias.

A Inglaterra chegou tardiamente nessa "corrida', pois, nos séculos XVI e XVII, atravessava problemas internos. Com a ascensão da burguesia, através do controle do Parlamento e a limitação dos poderes da monarquia e seu subjugo, a Inglaterra se lança ao mar.

Antes desse período, a Espanha e as outras potências do norte europeu ocuparam a América do Norte. "Mas a consolidação do poder britânico causou a eliminação total da competição colonial holandesa e sueca na América, a expulsão da França da Nova Escócia e Canadá e o retrocesso da fronteira espanhola para o sul da Flórida".

O período colonial dos E.U.A durou um século e meio. Indo desde o início do século XVII ao final do século XVIII, em 1776 com sua independência. Nesse momento da história norte-americana, que vai da República de Cromwell à Revolução Industrial, no século XVII, a exploração colonial do novo mundo fica a cargo de companhias comerciais, como a companhia de Londres.

Europeus, Índios e Negros.

Com a transição do feudalismo para o capitalismo, várias mudanças ocorreram na Europa. Nesse contexto, há uma ruptura nas relações "paternalistas" do sistema feudal, gerando um grande contingente de miseráveis. A Inglaterra se enquadra nessa situação. Dessa forma, "as colônias inglesas serviram de válvula de segurança para as altas pressões sociais provocadas pela exploração e opressão nos estados europeus e isso continuou até boa parte do século XX". Com isso, levas de europeus foram mandados para as colônias inglesas nas Américas, entre elas as 13 colônias que deram origem aos E.U.A. Esses europeus se concentraram principalmente nas colônias do norte.

Em relação aos negros, o escravo africano já era conhecido na Europa desde a Idade Média. Os povos da África sofreram durante séculos as atrocidades promovidas pelos europeus com a captura e o tráfico. "No tráfico de escravos, lucros fabulosos, dobrando e quintuplicando os investimentos iniciais em uma ou duas viagens, foram obtidos pelos ricos de toda Europa e, mais tarde, pelos mercadores do Novo Mundo, especialmente os da nova Inglaterra". Os negros se encontravam, principalmente, nas colônias do sul, onde prevaleceu a agricultura com base na grande propriedade.

No tocante aos povos nativos, a política inglesa foi a do genocídio. Pode-se afirmar que, em relação ao tamanho do território, a população nativa era bem esparsa, cerca de 200.000 habitantes. Esse grupo estava dividido em dois grandes grupos étnicos: Iroqueses e Algonquianos. "Sua cultura correspondia à Idade da Pedra, e o único animal domesticado era o cão. Viviam da caça e da pesca, e de uma forma muito superficial de lavoura". Suas terras eram comunais, a caça só se realizava em determinadas áreas, por grupos distintos. Seus chefes eram os mais velhos do grupo e as decisões eram sempre voltadas para a coletividade.

As atrocidades cometidas pelos europeus em relação ao Indígena foram as mais diversas, indo da violência física, contaminação por doenças e o etnocídio. Vários são os relatos de massacres contra os nativos americanos. Um relato do Governador holandês Keitt, em Nova Amsterdã (Nova York) no ano de 1643 é estarrecedor e demonstra a política de genocídio promovida pelos europeus:
"Ouvi uma grande gritaria e corri às muralhas do forte... nada vi senão o tiroteio, e escutei os gritos dos selvagens assassinados durante o sono... quando se fez dia, os soldados retornaram ao forte, tendo massacrado oitenta índios e considerando o que haviam realizado como um feito digno dos romanos... bebês foram arrancados aos peitos das mães e despedaçados a cutiladas na presença dos pais, e os pedaços foram jogados ao fogo e a água, e outras crianças de colo, estando atadas a pequenas pranchas, foram cortadas, espetadas, trespassadas e miseravelmente massacrados de maneira a comover um coração de pedra. Algumas foram lançadas ao rio e quando os pais e as mães se empenhavam em salvá-las os soldados não permitiam que retornasse à margem, mas faziam com que ambos e as crianças se afogassem".

Enfim, dos índios os europeus usurparam as riquezas, a terra e as técnicas de sobrevivência. Houve resistência por parte dos nativos, mas, não foram párias para a ferocidade européia.

As relações coloniais.

A relação Colônia X Metrópole é única a qualquer modelo de colonização, seja, portuguesa, espanhola ou inglesa. Assim, "as colônias foram estabelecidas e existiram para o fim de enriquecer... e realçar seu poder" , no caso, a Metrópole. As colônias eram fornecedoras de matéria-prima e força militar. Pois, as grandes potências européias viviam em constantes conflitos por mercados e por conseguinte o poder.

As guerras.

Dentro do contexto da disputa pelo poder por parte das potências européias, ocorreram inúmeros conflitos armados que envolveram as colônias. Durante os séculos XVII e XVIII, Inglaterra e França mediram forças através da guerra. Destas, quatro são consideradas importantes e ocorreram, também, nas colônias. Então temos: Guerra da Grande Aliança (1688-1697); Guerra de Sucessão Espanhola (1701-1713); Guerra de Sucessão Austríaca (1745-1748); Guerra dos Sete Anos (1756-1763).

O contingente utilizado nesses conflitos, quando se deram nas colônias, tornaram-se de certa forma treinados para a guerra. Nesse período, já existia grupos de grande proprietários ou uma elite colonial, a qual tinha interesses distintos aos da burguesia inglesa. Os interesses dessa elite colonial começaram a entrar em choque com os da elite metropolitana. Nas colônias já existiam, além dos latifúndios do sul, pequenas manufaturas no norte. Havia o interesse, por parte dessas elites do Novo Mundo, de expandir o território para o Oeste, mas, esse processo de ocupação do território só foi realizado no século XIX. Esse choque de interesses culminou no processo revolucionário que resultou na Independência das 13 colônias em 1776.

Bibliografia: APTHEKER, Herbert. Uma nova história dos Estados Unidos: a era colonial. Rio de Janeiro. Civilização brasileira. 1967.

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